Olá caro Leitor!
Encontrei no Blog de Alex Alcântara um texto muito interessante sobre Judá, o quarto filho de Jacó e quarto com sua esposa Lia.
Leia a seguir e seja edificado.
ENTRE O ORDINÁRIO E O EXTRAORDINÁRIO
O PIOR CAPÍTULO DA BÍBLIA - Gênesis 38 não tem herói, é trágico, enigmático e assustador. Gênesis 38 parece um intruso. Gostaríamos que Gênesis 38 não existisse, que fosse como o 13º andar dos edifícios norte-americanos. Ou seja: não estivesse lá. Pularíamos do capítulo 37 para o 39 e seguiríamos com a linda história de José do Egito. Mas, não. Gênesis 38 está lá. Incluso, perturbador, incômodo. Faz parte do cânon. É sagrado, inspirado. Gênesis 38 é um abacaxi que quero, presunçosamente, tentar descascar. Judá era um homem predestinado. Foi um dos doze filhos de Jacó. Não era o primogênito, também não foi o filho mais notável. Todavia, nem Rubem (o primogênito), nem José (que tornou-se vice-governador do Egito) tiveram a honra que coube a Judá. É da “raiz de Judá” que procede o maior rei de Israel, Davi e, acima deste, o maior de todos os reis, Jesus Cristo. Jesus é chamado de “Leão da Tribo de Judá”. Judá deu nome a um reino, Reino de Judá, e, posteriormente a uma raça, os judeus. No leito de morte, tendo os filhos ao seu derredor, Jacó abençoou a Judá com essas palavras: “Judá, seus irmãos o louvarão. Sua mão estará sobre o pescoço dos seus inimigos; os filhos de seu pai se curvarão diante de você. Judá é um leão novo. Você vem subindo, filho, meuu, depois de matar a presa. Como um leão, ele se assenta; e deita-se como uma leoa; quem tem coragem de acordá-lo? O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão” (Gênesis 49:8-10) Segundo a enciclopédia virtual Wikkipedia, a tribo de Judá foi a única tribo de Israel que foi preservada da descaracterização depois da invasão dos assírios – que provocou a miscigenação forçada. Os descendentes de Judá foram os únicos a preservarem suas tradições durante o exílio babilônico. Se a história de Judá fosse contada de trás para frente – a partir da benção de seu pai – sofreríamos um choque ao descobrir que ao homem Judá, ocorreu o contrário do que acerca dele fora profetizado. Judá teve um comportamento traiçoeiro, covarde, infiel e promíscuo. Judá toma parte num conluio com seus irmãos para darem cabo do irmão sonhador José. A história de José é conhecida. Vendido à mercadores, ele é levado ao Egito, onde, anos depois, alcança a condição de homem mais poderoso, abaixo apenas do Faraó. Judá, ao contrário, afasta-se do pai e dos demais irmãos e parte para um autoexílio de - pelo menos - duas décadas. E aconteceu no mesmo tempo que Judá desceu de entre seus irmãos e entrou na casa de um homem de Adulão, cujo nome era Hira – Gn 38:1 Não fora uma saída temporária. A versão Católica grafa “apartou-se” e a NVI “deixou seus irmãos e passou a viver na casa de um homem de Adulão” Por que Judá rejeitou o convívio com o pai e com os irmãos? Teria sido movido pelo sentimento de culpa? O provável é que Judá não tenha suportado conviver com um segredo (a mentira sobre a morte de José, seu irmão). Judá encontra a paz na casa de (H)IRA - Judá passa a viver na casa de Hira, o adulamita. Quem é ele? Não sabemos. Mas Hira foi amigo de Judá por, ao menos, vinte anos. Ele aparece aqui, recebendo Judá em sua casa, e anos depois (após a morte de dois filhos e da esposa) ao lado de Judá quando este reencontra Tamar em Timna (v.12) E viu Judá ali a filha de um homem cananeu, cujo nome era Sua; e tomou-a por mulher, e a possuiu - Gênesis 38:2 Em Adulão, Judá encontra uma esposa. A mulher, uma canaanita, é identificada apenas por ser “filha de Suá”. As coisas parecem ir bem. Ele não tem mais que contemplar diariamente o luto do pai, encontrou um amigo e uma esposa e logo nasceram-lhe três filhos homens: Er, Onan e Selá. Filhos eram considerados bençãos. Especialmente do sexo masculino. Judá pode se considerar então um homem afortunado. Er “já Era” - Er torna-se adulto e chega o momento de Judá, seu pai, dar-lhe uma mulher por esposa. Judá escolhe a Tamar. Judá faz a Er o que seu pai não pôde fazer a ele mesmo (dar-lhe uma esposa), mas Er morre sem dar netos à Judá. O texto destaca a razão “metafísica” de sua morte: Er era “mau aos olhos do Senhor”. Judá, pois, tomou uma mulher para Er, o seu primogênito, e o seu nome era Tamar. Er, porém, o primogênito de Judá, era mau aos olhos do Senhor, por isso o Senhor o matou - Gênesis 38:6-7 Judá estava diante de um filho incorrigível, intratável. É interessante notar que não há referência ao fato da morte de Er ter sido uma punição pelo que Judá fez a José. Não há sequer menção a uma possível relação de causa-efeito. Se a expressão da conduta de Er não fosse clara como é, seríamos tentados a julgar que Deus tirou o filho de Judá em decorrência de seu pecado contra José. Mas Er morreu “de maldade”. Er era “mau até morrer”. Será esse o modus operandi de Deus? Matar os maus? Há pessoas maléficas que tem vidas longuíssimas. Terá sido Er mais mau que tais pessoas? Como será a vida de um pai que tem consciência de que o filho morreu por decurso de sua própria malignidade? Como será para um pai admitir: “Eu tinha um filho que era mau até não poder mais. Morreu jovem e sem filhos e eu sei que foi Deus que o matou”? OH, NÃO ONÃ! - Não parece haver nenhum determinismo na morte. Pessoas boas e más morrem mais cedo ou mais tarde de modo aparentemente aleatório. Após a morte de Er, Tamar – seguindo um costume da época e local – é dada ao irmão seguinte, Onã (para que este “suscitasse descendência ao irmão morto”), mas Onã (cujo nome lembra uma negação prévia e permanente) se nega – ainda que tenha &39;compartilhado a tenda&39; com a ex-cunhada-feita-esposa, ele não chegava a bom termo. Diz o texto: Então disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou. Gênesis 38:8-10 Ao decidir não cumprir a tradição, Onã abriu mão de ter, ele próprio, descendência. O primeiro filho seria considerado do irmão, mas os seguintes seriam seus. Onã não quis nem uma coisa, nem outra. Pior ainda: Onã poderia (uma vez que não concordava) ter se negado a assumir a viúva do irmão ou a manter relações com ela, mas ele se prestou a aceitar o “bônus” (as relações sexuais) sem aceitar o “ônus” (a concepção de um filho que não seria legitimamente “seu”). Isso também foi considerado “mau aos olhos do Senhor” e Onã morreu. Casou com Tamar, tamar-cado pra morrer - Judá induz Tamar a pensar que ele lhe oferecerá seu terceiro filho, Selá, assim que ele estiver maduro, mas a proposta esconde um plano. Judá esperava que o tempo fizesse o serviço. Quem sabe Tamar morresse, ou encontrasse outro homem ou simplesmente desistisse. Judá temia que Selá morresse (como os outros) após se casar com Tamar. Para Judá, Tamar era a “Viúva Negra Cananéia”. Mas os filhos de Judá não haviam morrido por decorrência de seus casamentos. Por esta época, Judá se recusa a relacionar a morte dos filhos à própria vilania destes, preferindo atribuir à nora a relação de causa-efeito. Tá-mar e vai ficar pior - Na condição de uma viúva sem filhos, Tamar, por não ser mais virgem, de acordo com a tradição da época, não pertencia mais à casa de seu pai, mas Judá à devolve mesmo assim dando-lhe a falsa esperança de casar-se com seu caçula, e agora, único filho. O tempo passa e o que estava mal, fica pior. Judá perde a esposa. Restam-lhe agora, o amigo Hira e o filho Selá. Passando-se pois muitos dias, morreu a filha de Sua, mulher de Judá; e depois de consolado Judá subiu aos tosquiadores das suas ovelhas em Timna, ele e Hira, seu amigo, o adulamita. E deram aviso a Tamar, dizendo: Eis que o teu sogro sobe a Timna, a tosquiar as suas ovelhas. Gênesis 38:12-13 O duro trabalho de tosquiar ovelhas era acompanhado de uma festa (festival) que se destacava pela celebração às custas de bastante vinho. Os cultos canaanitas compreendiam rituais de fertilidade com prática de sexo ritual. Tamar estava sendo vítima do descumprimento da lei do Levirato (prometida por seu sogro) e, quando ela descobre que o velho Judá está por aquelas bandas, ela não perde a oportunidade. E deram aviso a Tamar, dizendo: Eis que o teu sogro sobe a Timna, a tosquiar as suas ovelhas. Então ela tirou de sobre si os vestidos da sua viuvez e cobriu-se com o véu, e envolveu-se, e assentou-se à entrada das duas fontes que estão no caminho de Timna, porque via que Selá já era grande, e ela não lhe fora dada por mulher. E vendo-a Judá, teve-a por uma prostituta, porque ela tinha coberto o seu rosto. E dirigiu-se a ela no caminho, e disse: Vem, peço-te, deixa-me possuir-te. Porquanto não sabia que era sua nora... e possuiu-a, e ela concebeu dele. Gênesis 38:13-18 A íntegra dessa história pode ser lida no capítulo trinta e oito do Gênesis. O resumo final, todavia, é que Tamar se revela ao ex-sogro-feito-marido e Judá, um homem acostumado à fuga das responsabilidades, tem uma reação “extraordinária” Judá... disse: Mais justa é ela do que eu, porquanto não a tenho dado a Selá meu filho. E nunca mais a conheceu. Gênesis 38:26 A trágica história de um homem que perdeu dois filhos e a esposa e seu envolvimento com a nora, duas vezes viúva termina aqui. As mortes prematuras se encerraram, a vida deu o ar da graça novamente – com a chegada dos gêmeos (cfe versos 27 e 28). Podemos dizer que Judá voltou para sua família paterna, pois seu lugar na história de José é retomado nos capítulos seguintes. Judá é um outro homem agora. Quando se vê diante da situação de perigo à vida de seu irmão caçula, Benjamim, Judá se prontifica a morrer pelo irmão (cfe Gn 44:16-34) Não há muitos episódios notáveis na vida de Judá. Sua notoriedade será decorrente mais de seus descendentes (toda uma dinastia real que incluirá Davi, Salomão e, principalmente, Jesus) do que dele mesmo. Entretanto, aprendemos com Judá que a maioria de nós vive como ele. A Bíblia é repleta de heróis da fé. Judá não foi um deles. Judá serve para nos lembrar que a Bíblia Sagrada não é uma espécie de Liga da Justiça ou um universo fantástico onde todos andam sobre as águas, abrem os mares, derrubam gigantes, derrotam exércitos. No sagrado também cabe gente “ordinária”, gente comum. Gente que sente culpa, medo e foge. Que tenta se reinventar e falha miseravelmente. Judá foge da família e da presença do pai, mas não consegue se “ver livre” da bênção e da provisão de Deus. Judá encontra-se com seu destino em uma terra estranha, de uma forma ainda mais estranha. Ele é um homem que caminha entre o ordinário – vida, morte, nascimentos, encontros, amizades – e o extraordinário (filhos que morrem “de malignidade”, uma nora de mau agouro, um encontro inusitado com uma estranha prostituta familiar, gêmeos que brigam para ver quem nasce primeiro). Normalmente (ou “ordinariamente) não é possível escrever a história de um homem enquanto ele vive. É preciso que se aguarde o capítulo derradeiro de sua vida. Só então, olhando em retrospectiva, é possível analisar os caminhos que ele trilhou para chegar onde chegou. Judá tem, ainda em vida, a possibilidade (extraordinária) de saber onde seus caminhos terminam. Ao pé do leito de morte do pai, Judá encontra sua redenção. Não é mais um homem marcado pela culpa, pela fuga e pelos erros. Judá é, ele mesmo e seus descendentes depois dele, como um leão. Há um cetro e uma nobreza que lhe aguardam.
Postado há 17th September 2013 por Alex Alcantara.